The True

Eu trabalho em uma empresa que faz outsourcing na área têxtil. Internacionalmente e Nacionalmente.
São compradas roupas da India, China, Bangladesh e Brasil.

Existem muitos e muitos meios pra "garantir" que essas produções são feitas em lugares que respeitam os direitos humanos, pagam seus funcionários e não tem trabalho infantil ou de imigrantes ilegais. Esse garantir nem sempre funciona e não é raro acontecer de encontrarem alguma marca fabricando em algum lugar de forma irregular.

Eu trabalho com cinco marcas e as vezes eu paro pra pensar. Se algum dia alguma delas for denunciada, eu vou estar tão diretamente ligada (mais moralmente, afinal, sou só uma analista qualquer) e no fundo, vou me sentir incapaz, porque não consegui ver isso antes.

Então hoje, depois de 6 meses da indicação de uma das minhas chefes, eu finalmente assisti o documentário The True Cost. E nossa, como ele me fez pensar.

O documentário coloca em questão as produções que vão para os Estados Únidos, onde os preços são ridículos e as pessoas compram porque o poder aquisitivo delas permite. Lembro até hoje quando fui na Forever 21 lá e encontrei uma blusinha por $ 1,99 e achei a coisa mais incrível do mundo. A blusa é razoavelmente boa e faz parte do meu pijama de verão até hoje. Aí, na última viagem que fiz para o Rio, encontrei a mesma blusinha, dessa vez por R$ 15,00.

Mas tenho que parar pra pensar. Se uma rede enorme como a Forever 21 consegue vender as peças por $ 1,99 e ainda ter seu lucro (ou por R$ 15,00 com as taxas, transporte, impostos), quanto ela pagou pra alguém, na Guatemala, produzir?

A questão para as marcas Brasileiras é ainda um pouco pior.
Os valores pagos por peça são minusculos (já vi cintos por $ 0,90 no sistema que custariam talvez R$ 70,00 nas lojas). A margem não é tão grande, mesmo que garanta um faturamento enorme pra empresa todos os anos. O preço final fica alto pelo custo do dólar, o custo de importação, os impostos, o mark-up e outros fatores. E aí começa o problema dessa cadeira: o Brasileiro acha absurdo os preços que pagam, não é igual ao Americano, que produz nas mesmas fábricas lá na Ásia.

Aí, as marcas vão e negociam preços menores, materiais piores. O consumidor ainda acha caro e não quer mais comprar. A marca tenta de novo e de novo. Mas o consumidor quer pagar muito barato e ter peças de alta qualidade. Como assim pagar R$ 150,00 em uma blusa básica? Tem que pagar R$ 25,00 e se formar "bolinha", que porcaria de blusa.

O Brasil ainda é um país pobre e o preço que nós pagamos em uma roupa e pra que ela dure uma quantidade muito boa de tempo, mesmo que muito barata. Ou quem pode comprar a mais cara, as vezes prefere ir na Zara ou na Hering e comprar várias mais baratas e não só uma mais cara.

Eu já visitei algumas fábricas que tem condições "apropriadas" para os funcionários. Não gostei do que vi. Eu imagino então, o que são as fábricas com lugares inapropriádos. E isso pensando no Brasil.

Não conheço as fábricas internacionais, mas sei que eles não tem metade do que era pra termos aqui. As pessoas recebem os $ 2,00 que eu paguei naquela blusinha por dia, pra costurar muitas e muitas blusinhas. Mas são poucos os que pensam nisso. A maioria pensa no que compra nas lojas como algo de lá, e não sabe do processo de fabricação. Que só sabe olhar na etiqueta e ver "Made in China" pra achar que vai ter qualidade ruim.

No documentário existem aqueles que colocam que dar esse trabalho para os países da Ásia que são extremamente pobres é ótimo, pois acaba dando uma oportunidade para as pessoas trabalharem e evoluir (o mesmo vale pro Brasil, onde a cadeira têxtil, especialmente na costura, é repleta de pessoas de poder aquisitivo baixo). Mas até que ponto é bom você dar trabalho pra essas pessoas, sem dar boas condições? Obrigar a trabalhar 12 horas no dia pra cumprir a meta e pagar basicamente um salário mínimo pra isso?

Melhorar a vida de quem está na produção não é um processo fácil. Não é simplesmente fazer acontecer. Isso vai trazer consequencias enormes pro consumidor primário (empresas), pro secundário (lojas) e terciários (pessoas que comprar as marcas). E um movimento que depende de tanta gente.

Mas outra hora, depois de estudar e ler mais sobre isso, eu volto pra falar.

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