Quando acabou a luz

É ótimo quando acaba a energia. É justamente quando todos se lembram das pilhas não compradas para repor na lanterna, porque era melhor comprar uma garrafa de vinho francês. Afinal, o mundo já deveria ter evoluido o suficiente para evitar esse tipo de constrangimento. Também vem a memória da época da casa dos pais, quando ao menor sinal de apagão, alguém já tinha corrido atrás de velas e lanternas, preparados para qualquer coisa.
No prédio Green na zona sul de São Paulo, Julia estava sentada em sua cama, esperando que a luz voltasse. Era completamente inútil ter um computador quando a internet não funcionava, e além disso justo naquele dia tinha deixado de carregar a bateria de seu celular. E então o que faria sem a internet? Não havia como sair de casa, a escuridão era perigosa demais. Tinha esquecido o que fazia quando não tinha internet. Poderia cozinhar, mas não tinha receitas escritas, só em algum site de culinária fácil. Poderia ler, mas seu iPad também estava com pouca bateria e provavelmente não duraria a leitura completa. Estava completamente perdida.
Seu vizinho, Pedro, tinha a mesma dificuldade. Tinha passado o domingo inteiro jogando o recem comprado video game, que mesmo quando se tem 23 anos, não se tornava chato. Quando a energia caiu, só pôde ficar com raiva por não ter salvo o jogo nos últimos minutos. Ele apenas continuou no sofá, pensando no que poderia fazer. Talvez pudesse ouvir música, o iPod estava guardado em alguma gaveta da escrivaninha. Alguns passos para a direita, outros dois para esquerda, poucos em frente e chegaria lá esbarrando em algum tenis esquecido no meio da sala. Seria mais fácil ir em direção a porta e pedir ajuda a vizinha magrela do apartamento ao lado. Sim, ela tinha cara de quem teria uma vela para emprestar.
Usando os últimos 5% de bateria que lhe restava, Julia conseguiu andar até o guarda-roupa e encontrar uma vela aromática colorida que tinha guardado de encontros anteriores com seu último namorado. Agradeceu mentalmente pela única vantagem que teve do jantar no qual ela preparou (com direito até a tais velas) e o infeliz resolveu terminar o relacionamento. ‘Sou eu, e não você’ ele disse, esperando que ela acreditasse. Caminhou até a sala, onde esperava escontrar o esqueiro escondido na gaveta para seus eventuais cigarros e finalmente acender a vela.
Juntando as forças reunidas em um final de semana completamente inútil, Pedro se levantou e esperou que seus olhos pudessem ver alguma coisa através da escuridão. Pela janela entrava alguma luz, afinal completa escuridão em São Paulo era difícil de acontecer, mas apenas o suficiente para identificar móveis. Com as mãos a sua frente, foi caminhando em direção a porta, batendo o pé em algumas quinas, o que o fazia reclamar de dor.
A única coisa que Julia esperava é que a energia voltasse até a manhã seguinte, como ficaria sem tomar banho para ir ao trabalho? E água gelada não era uma opção, mesmo porque não teria secador para arrumar o cabelo. Poderia ligar para alguma amiga, mas novavemente se lembrou que estava sem internet ou celular para se comunicar.
O costume que tinha de tirar as chaves da porta quando entrava no apartamento deixou Pedro irritado, não conseguia entender porque fazia isso, se por dentro não havia perigo algum. Teve que pegar o chaveiro pendurado e procurar a chave pelo formato e encaixar na porta, tarefa nada fácil na baixa luminosidade. Depois de meia duzia de tentativas, a porta se abriu, revelando um corredor mais escuro do que aqueles que via em jogos de terror. Simplesmente bateu na porta ao lado, tendo mais esperança quando viu uma luz fraca passando por debaixo da porta.
Julia levou um susto quando ouviu um barulho na porta. Não conhecia nenhum de seus vizinhos, apenas dizia ‘bom dia’ ou ‘boa noite’ quando encontrava algum nas escadas. Considerou fingir que não estava em casa, mas provavelmente quem quer que fosse teria visto a luz da vela. Colocou a vela sobre uma revista de moda que tinha lido durante a manhã e seguiu seu caminho até a porta, caminhando lentamente para não apagar a chama.
Pedro já começava a ficar impaciente, e no fundo até um pouco com medo, por causa da demora. Não poderia levar tanto tempo assim para encontrar a porta quando se ter luz. Pensou nas vezes que viu sua vizinha e tentou lembrar de seu nome das reuniões do prédio. Era Amanda. Não, talvez Paula, não se lembrava direito, era mais fácil usar pronomes impessoais, que disfarçariam bem esse problema.
Foi então que Julia abriu a porta. Ela usava um shorts e moletom com as letras USP bordadas, além de meias brancas. Pedro achou que ela estava chamosa. Ele usava um shorts e uma camiseta qualquer, com algum simbolo de marca que ela não reconheceu no escuro. Julia achou que ele estava bonitinho.
Ela sorriu, esperando que o vizinho bonitinho dissesse que o que queria. Ele sorriu de volta, esquecendo o porque de estar lá.
Sorrisos vem, sorrisos vão, palavras ditas e ouvidas. Julia esquece do computador e Pedro esquece do video game. Só continuam ali no corredor, a luz de vela e conversando, sem nem ao menos reparar quando a luz volta nos apartamentos.

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